Quase 130 anos depois, o livro continua a provocar controvérsia. Uma nova versão de "Huckleberry Finn", que deve sair em fevereiro nos EUA pela NewSouth Books, substitui a palavra "nigger" [algo como crioulo] por "slave" [escravo]. Termo racial pejorativo, "nigger" aparece mais de 200 vezes no livro. Autor da ideia da troca, o professor universitário Alan Gribben disse que se sentia constrangido em ter que pronunciar a palavra nas aulas.
Professores e tradutores brasileiros ouvidos pela Folha.com foram unânimes em criticar a proposta.
"A onda do politicamente correto pode levar ao apagamento do processo histórico", disse Sandra Vasconcelos, professora de literatura na USP. "Como professora, não posso concordar com essa 'limpeza'. O uso da palavra deve ser interpretado de acordo com o contexto."
Heloisa Helou Doca, professora de literatura americana da Universidade de Marília e autora de tese de mestrado sobre Twain, diz que o autor, na verdade, era um idealista que lutou pelos desfavorecidos, incluindo os negros.
LOBATO
Tradução mais recente do clássico, feita por Sergio Flaksman nos anos 90, traduz o trecho como "escravo alto", mas também usa "negro" ao longo do livro. Sobre a alteração na nova edição americana, Flaksman disse que "me deixa indignado que qualquer editor ou revisor considere legítimo qualquer manipulação a posteriori de uma obra literária".
Tradutores fazem coro. "É o equivalente a estuprar um livro", afirma Jorio Dauster.
"Sou contra as atualizações porque desfigura a obra de arte", conclui Ivo Barroso.
Fonte: Folha.com - 08/01/2011 - Juliana Vaz / Marco Rodrigo Almeida
"Sou contra as atualizações porque desfigura a obra de arte", conclui Ivo Barroso.
Fonte: Folha.com - 08/01/2011 - Juliana Vaz / Marco Rodrigo Almeida
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