Perdemos hoje mais uma biblioteca....
Lembrada por ter sido a primeira mulher africana a receber um Premio Nobel da Paz, Wangari Maathai foi certamente uma grande guerreira: mulher, mãe, pesquisadora e professora, membro do Parlamento do Quênia, fundadora, militante do Movimento Cinturão Verde... Corajosa e determinada essa mulher nascida no Quênia, em 1940, marcou a história do seu país e foi referência para muitos, em diversos lugares dentro e fora do continente africano.
Ficamos agora com o desafio de fazer com que a luta e a memória de Wangari atravessem os tempos, os espaços e passem a ocupar lugar no imaginário de crianças, adolescentes e adultos que não tiveram a oportunidade de acompanhar sua história e suas conquistas.
Felizmente essa brava, iluminada e generosa guerreira brindou-nos também com um belo, profundo e contundente livro de memórias. É impossível ler Inabalável sem ter a mais absoluta certeza de que só quando orientados por nossos mais verdadeiros sonhos e desejos podemos ser verdadeiramente autênticos. A leitura do livro de memórias de Wangari Maathai é uma profunda provocação para o leitor que é convocado a conhecer a história dessa mulher singular e, ao mesmo tempo, desvendar um pouco da história e da cultura do Quênia.
Lembro-me que durante a leitura do livro diversas vezes me senti sacudida pelo relato de Wangari. Me senti profundamente feliz pelo privilégio de conhecer sua história e por, em muitos momentos, reconhecer em suas palavras, nas cenas descritas, fragmentos da minha história. Me emocionei ao ler as diversas passagens em que a autora relatava situações de humilhação, de repressão, de fragilidade e dor físicas e afetivas que marcaram tão profundamente sua vida, sem que significassem motivo para desânimo, para desistência ou para abandono do projeto que ela elegeu para sua vida.
Inabalável, Wangari Maathai. Nova Fronteira
Um fragmento do texto de Agradecimentos que abre o livro de Wangari
"Ao longo dessa viagem, nunca estive sozinha. Tive o apoio e a ajuda de muita gente que moldou minha vida no meio das experiências que compartilhamos. No início, foram os meus pais, que me seguraram pela mão e me conduziram quando eu não sabia aonde ir, quando eu não sabia o que era certo ou errado. Depois, os meus professores, à medida que eu mudava de uma escola para outra e ia adotando as suas ideias e os seus valores. (...)
Mais tarde, foram todas as pessoas que encontrei apenas uma vez na vida ou esporadicamente; mesmo assim, elas deixaram suas pegadas no meu caminho. Lembro-me de seus nomes, mas não de seus rostos, ou vice-versa; apesar de tudo, elas modelaram a minha vida e o meu destino...." (p.11)
Neide A. de Almeida
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