segunda-feira, 23 de março de 2015


Conceição Evaristo no Museu Afro Brasil

Aconteceu o Encontro Marcado no Museu Afro Brasil com a escritora Conceição Evaristo.
Autora de diversos livros dentre eles Ponciá Vicêncio, Becos da Memória, Insubmissas lágrimas de mulheres e Olhos d'água.
Conceição Evaristo nasceu em 1946 em uma favela em Belo Horizonte. Filha de lavadeira, morava em um barraco apertado com mais nove irmãos.
Leitora assídua de Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do Rego, Drummond de Andrade e Carolina Maria de Jesus.
Também escrevia em seus diários o seu cotidiano sofrido.
Participa da publicação Cadernos Negros com diversos textos literários.

O bate-papo foi repleto de beleza, reflexão e riqueza.
Os convidados, dentre eles escritores, pesquisadores, jovens, professores e apaixonados por literatura e por nossa história e memória.
A intensidade com que Conceição traz os assuntos desperta os envolvidos e emociona.
O encerramento do encontro aconteceu com o lançamento do livro "Olhos d'água" e tarde de autógrafos.

Segue um trechinho do conto:

" Olhos d´água
Conceição Evaristo
Uma noite, há anos atrás, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada, custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta martelando, martelando. De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe? 
Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi a conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer, em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do seu corpo. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo... Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela... Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava e o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs, aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela? 
Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis onde as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas...

[1] Conto publicado em Cadernos Negros 28, São Paulo, Quilombhoje, 2005.
Publicado em Contos do mar sem fim, Rio de Janeiro :Pallas, Guine-Bissau:Ku Si Mon, Angola: Chá de Caxindé, 2010.


                            
Neide de Almeida


Conceição Evaristo e Neide de Almeida

Osvaldo Faustino

Osvaldo de Camargo, Sidinéia, Bruno, Neide, Ketlin, Silvani, Rafael e Bel

Equipe do Museu Afro com Conceição Evaristo e Bel Mayer



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