Cinema não é
literatura. São duas formas artísticas com características peculiares e bem
diferentes.
Entretanto, desde que
surgiu, o cinema deve muito à literatura, e a moderna literatura recebeu enorme
influência da arte cinematográfica, a ponto de sua relação com o público leitor
ter sofrido com esse contato notáveis transformações. Mas isso é assunto para
outras reflexões, que poderão ser feitas neste espaço.
Nesta semana,
lamentamos a morte de Ray Bradbury, escritor cujas contribuições para a
literatura e o cinema foram gigantescas.
Bradbury escritor e a ficção científica
Como gênero literário,
a ficção científica (que aborda o futuro da humanidade em cenários tecnológicos
delirantes, as viagens no tempo, os seres extraterrestres, as especulações em
torno de universos paralelos, etc.) sempre foi mais bem aproveitada pelo cinema
do que pela indústria editorial. De Georges Méliès (1861-1938), nos primórdios
da indústria cinematográfica, a Steven Spielberg, na atualidade, a FC impulsionou
o cinema "de efeitos especiais". Mas, no Brasil, até hoje desperta escasso
interesse de escritores e, em consequência, de editores e cineastas.
No século passado, entretanto,
o sucesso de uma geração de talentosos escritores infundiu novo status às narrativas
de ficção científica — que, até o advento da bomba atômica e da perspectiva de
um apocalipse nuclear (II Guerra, Guerra Fria), circulavam apenas em edições modestas
e revistas impressas em papel barato. A popularização dos temas da ficção
científica "clássica" levou esses escritores a adotar uma nova
linguagem (para atingir um público mais amplo, foi necessário abandonar o
complicado jargão técnico) e uma perspectiva crítica, moralista, conservadora e
às vezes apocalíptica em relação ao progresso tecnológico.
Esses autores foram os
norte-americanos Ray Bradbury (1920-2012) e Robert Heinlein (1907-1988), o
russo naturalizado norte-americano Isaac Asimov (1920-1992), o britânico Arthur
C. Clarke (1917-2008) e o polonês Stanislaw Lem (1921-2006).
Bradbury escreveu romances
e contos cujo texto foi muitas vezes comparado a poesia, ensaios e roteiros
para teatro, cinema e televisão. Em sua obra abundante, destacam-se — como
ininterrupta fonte de inspiração para romancistas, roteiristas e quadrinistas
profissionais e amadores, além de amantes do insólito em geral — "As
crônicas marcianas" (1950). Na antevisão do autor, o planeta Marte
colonizado pelos terráqueos é um lugar em que a ideologia triunfalista humana
aos poucos desmorona e se dilui na poeira deixada por antigas civilizações.
No cinema, Heinlein
inspirou "Tropas estelares" (1997), dirigido por Paul Verheoven. Os
textos de Asimov serviram de base para "Eu, robô" (2004, Alex Proyas)
e "O homem bicentenário" (1999, Chris Columbus). Clarke escreveu o
famosíssimo "2001, uma odisseia no espaço" e o roteiro de sua não
menos famosa adaptação cinematográfica, dirigida em 1968 por Stanley Kubrick.
"Solaris", de Lem, foi levado às telas em 1972, por Andrey Tarkovskiy,
e em 2002, por Steven Soderbergh. Além desses conhecidos títulos, esses autores
são responsáveis, de alguma forma, por centenas de adaptações e roteiros para
cinema e séries de TV.
Bradbury
roteirista: "Moby Dick", de Herman Melville/John Huston
Ray Bradbury, por sua
vez, foi o roteirista (os roteiros também podem ser considerados como
integrantes de um gênero literário específico) que preparou o mapa da mina para
que o diretor John Huston (1906-1987) filmasse em 1956 "Moby Dick",
adaptação cinematográfica da obra homônima de Herman Melville (1819-1891).
Melville é considerado
um dos maiores escritores norte-americanos, e suas obras serviram de base para
incontáveis (e até irreconhecíveis) adaptações para cinema e TV. São
infindáveis as repercussões — sobre todas as formas artísticas — de sua
narrativa (publicada em 1851) sobre a obsessiva perseguição que o sinistro capitão
Acab move contra o fantasmagórico cachalote branco apelidado Moby Dick. Como
coadjuvante, Orson Welles encarna um inesquecível pregador e seu curioso sermão
construído com linguagem técnica náutica e da caça às baleias.
Huston foi um dos
diretores do cinema norte-americano que mais influência exerceu sobre todas as
outras cinematografias, dos jovens diretores franceses da Nouvelle Vague ao japonês
Akira Kurosawa (1910-1998).
Assim, no filme
"Moby Dick", reuniram-se quatro gigantes, Bradbury, Melville, Huston e
Welles — ou cinco, se contarmos o feroz e indestrutível cachalote...
Bradbury adaptado para o cinema:
"Fahrenheit 451", de François Truffaut
Em 1953, Bradbury
publicou sua obra mais perturbadora, mais lembrada e controvertida, seja como
livro, seja como adaptação para o cinema. Inspirado nas fogueiras com que os
nazistas alemães (mas não só eles) queimavam obras de arte que consideravam
“decadentes”, o autor visou todas as formas de censura e imaginou um futuro distópico,
no qual a posse de livros seria considerada subversão da ordem pública, os
bombeiros se encarregariam de incinerá-los e as pessoas teriam que imaginar
jeitos de preservar a memória literária da humanidade.
Neste caso, a
transposição para o cinema foi feita em 1966 pelo diretor francês François
Truffaut (1932-1984), amigo dos livros e inimigo das más adaptações, um dos
fundadores da Nouvelle Vague. Um filme excepcional, inclusive na filmografia de
Truffaut, que não trabalhava com o gênero da ficção científica, não tinha
filmado em cores até então nem filmava com diálogos em inglês. Uma declaração
de amor pelas obras impressas que o diretor considerava as mais importantes já
produzidas.Frank Ferreira é editor e tradutor freelance, e cineclubista desde o início da década de 1980, quando ajudou a fundar o Cineclube Bixiga. Atualmente, participa do Cineclube Darcy Ribeiro, dos estudantes da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
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A postagem das indicações de livros dos comentários do post "Nas estantes das bibliotecas", ficará para o dia 19/06.
Continuem contribuindo com dicas de leitura.

Vi uma reportagem na TV falando sobre este autor, em particular, me despertou o interesse em ver mais uma vez o filme "Fahrenheit 451" do qual tive a oportunidade de assistir com meus amigos do Litera em mais um momento de formação... Alguém aí lembra? Quantos lugares interessantes para "esconder" os amados livros, não? Será que conseguiríamos decorar o nosso livro favorito? rs
ResponderExcluirParabéns Adriano, vc me fez recordar desse filme maravilhoso... ótima matéria!!!
Fahrenheit 451 é um ótimo filme para refletirmos sobre o poder das bibliotecas, dos livros e da leitura. A ausência de espaços de leitura em nosso pais nunca se trato apenas do descaso dos governantes, as bibliotecas e os livros quando produzem senso crítico ameaçam os interesses desta gente,POR ISSO penso na Biblioteca como um meio para liberdade. Vamos lutar com os livros Liter@s (Se necessário batendo na cabeça dos políticos).
ResponderExcluirIsso mesmo Edson... De muitas maneiras os livros nos são uteis! :)
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