segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sobre cinema e literatura

Cinema não é literatura. São duas formas artísticas com características peculiares e bem diferentes.
Entretanto, desde que surgiu, o cinema deve muito à literatura, e a moderna literatura recebeu enorme influência da arte cinematográfica, a ponto de sua relação com o público leitor ter sofrido com esse contato notáveis transformações. Mas isso é assunto para outras reflexões, que poderão ser feitas neste espaço.
Nesta semana, lamentamos a morte de Ray Bradbury, escritor cujas contribuições para a literatura e o cinema foram gigantescas.

Bradbury escritor e a ficção científica 
Como gênero literário, a ficção científica (que aborda o futuro da humanidade em cenários tecnológicos delirantes, as viagens no tempo, os seres extraterrestres, as especulações em torno de universos paralelos, etc.) sempre foi mais bem aproveitada pelo cinema do que pela indústria editorial. De Georges Méliès (1861-1938), nos primórdios da indústria cinematográfica, a Steven Spielberg, na atualidade, a FC impulsionou o cinema "de efeitos especiais". Mas, no Brasil, até hoje desperta escasso interesse de escritores e, em consequência, de editores e cineastas.
No século passado, entretanto, o sucesso de uma geração de talentosos escritores infundiu novo status às narrativas de ficção científica — que, até o advento da bomba atômica e da perspectiva de um apocalipse nuclear (II Guerra, Guerra Fria), circulavam apenas em edições modestas e revistas impressas em papel barato. A popularização dos temas da ficção científica "clássica" levou esses escritores a adotar uma nova linguagem (para atingir um público mais amplo, foi necessário abandonar o complicado jargão técnico) e uma perspectiva crítica, moralista, conservadora e às vezes apocalíptica em relação ao progresso tecnológico.
Esses autores foram os norte-americanos Ray Bradbury (1920-2012) e Robert Heinlein (1907-1988), o russo naturalizado norte-americano Isaac Asimov (1920-1992), o britânico Arthur C. Clarke (1917-2008) e o polonês Stanislaw Lem (1921-2006).
Bradbury escreveu romances e contos cujo texto foi muitas vezes comparado a poesia, ensaios e roteiros para teatro, cinema e televisão. Em sua obra abundante, destacam-se — como ininterrupta fonte de inspiração para romancistas, roteiristas e quadrinistas profissionais e amadores, além de amantes do insólito em geral — "As crônicas marcianas" (1950). Na antevisão do autor, o planeta Marte colonizado pelos terráqueos é um lugar em que a ideologia triunfalista humana aos poucos desmorona e se dilui na poeira deixada por antigas civilizações.


No cinema, Heinlein inspirou "Tropas estelares" (1997), dirigido por Paul Verheoven. Os textos de Asimov serviram de base para "Eu, robô" (2004, Alex Proyas) e "O homem bicentenário" (1999, Chris Columbus). Clarke escreveu o famosíssimo "2001, uma odisseia no espaço" e o roteiro de sua não menos famosa adaptação cinematográfica, dirigida em 1968 por Stanley Kubrick. "Solaris", de Lem, foi levado às telas em 1972, por Andrey Tarkovskiy, e em 2002, por Steven Soderbergh. Além desses conhecidos títulos, esses autores são responsáveis, de alguma forma, por centenas de adaptações e roteiros para cinema e séries de TV.

Bradbury roteirista: "Moby Dick", de Herman Melville/John Huston
Ray Bradbury, por sua vez, foi o roteirista (os roteiros também podem ser considerados como integrantes de um gênero literário específico) que preparou o mapa da mina para que o diretor John Huston (1906-1987) filmasse em 1956 "Moby Dick", adaptação cinematográfica da obra homônima de Herman Melville (1819-1891).
Melville é considerado um dos maiores escritores norte-americanos, e suas obras serviram de base para incontáveis (e até irreconhecíveis) adaptações para cinema e TV. São infindáveis as repercussões — sobre todas as formas artísticas — de sua narrativa (publicada em 1851) sobre a obsessiva perseguição que o sinistro capitão Acab move contra o fantasmagórico cachalote branco apelidado Moby Dick. Como coadjuvante, Orson Welles encarna um inesquecível pregador e seu curioso sermão construído com linguagem técnica náutica e da caça às baleias.
Huston foi um dos diretores do cinema norte-americano que mais influência exerceu sobre todas as outras cinematografias, dos jovens diretores franceses da Nouvelle Vague ao japonês Akira Kurosawa (1910-1998).
Assim, no filme "Moby Dick", reuniram-se quatro gigantes, Bradbury, Melville, Huston e Welles — ou cinco, se contarmos o feroz e indestrutível cachalote...

Bradbury adaptado para o cinema: "Fahrenheit 451", de François Truffaut
Em 1953, Bradbury publicou sua obra mais perturbadora, mais lembrada e controvertida, seja como livro, seja como adaptação para o cinema. Inspirado nas fogueiras com que os nazistas alemães (mas não só eles) queimavam obras de arte que consideravam “decadentes”, o autor visou todas as formas de censura e imaginou um futuro distópico, no qual a posse de livros seria considerada subversão da ordem pública, os bombeiros se encarregariam de incinerá-los e as pessoas teriam que imaginar jeitos de preservar a memória literária da humanidade.
Neste caso, a transposição para o cinema foi feita em 1966 pelo diretor francês François Truffaut (1932-1984), amigo dos livros e inimigo das más adaptações, um dos fundadores da Nouvelle Vague. Um filme excepcional, inclusive na filmografia de Truffaut, que não trabalhava com o gênero da ficção científica, não tinha filmado em cores até então nem filmava com diálogos em inglês. Uma declaração de amor pelas obras impressas que o diretor considerava as mais importantes já produzidas.




Frank Ferreira é editor e tradutor freelance, e cineclubista desde o início da década de 1980, quando ajudou a fundar o Cineclube Bixiga. Atualmente, participa do Cineclube Darcy Ribeiro, dos estudantes da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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A postagem das indicações de livros dos comentários do post "Nas estantes das bibliotecas", ficará para o dia 19/06.
Continuem contribuindo com dicas de leitura.


3 comentários:

  1. Vi uma reportagem na TV falando sobre este autor, em particular, me despertou o interesse em ver mais uma vez o filme "Fahrenheit 451" do qual tive a oportunidade de assistir com meus amigos do Litera em mais um momento de formação... Alguém aí lembra? Quantos lugares interessantes para "esconder" os amados livros, não? Será que conseguiríamos decorar o nosso livro favorito? rs

    Parabéns Adriano, vc me fez recordar desse filme maravilhoso... ótima matéria!!!

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  2. Fahrenheit 451 é um ótimo filme para refletirmos sobre o poder das bibliotecas, dos livros e da leitura. A ausência de espaços de leitura em nosso pais nunca se trato apenas do descaso dos governantes, as bibliotecas e os livros quando produzem senso crítico ameaçam os interesses desta gente,POR ISSO penso na Biblioteca como um meio para liberdade. Vamos lutar com os livros Liter@s (Se necessário batendo na cabeça dos políticos).

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  3. Isso mesmo Edson... De muitas maneiras os livros nos são uteis! :)

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