"E lá vem a macumba!", diz a menina, entre risos,
juntamente com todos os que passam pela rua ou esperam a abertura dos portões
da Escola Estadual Prof. Belkice Manhães Reis, em Parelheiros, no extremo sul
da capital paulista. Ela bem sabe que não se trata de candomblé, mas o espanto
inicialmente causado pelo surgimento de um grupo de adolescentes vestindo
roupas coloridas e batendo instrumentos de percussão vai ser sempre assim
lembrado pelos moradores do bairro. Agora, todos já estão acostumados a ouvir e
a receber com boa vontade os garotos e garotas bem-humorados que circulam pelas
ruas empoeiradas no projeto Cortejos Literários, para contar histórias e dar
seu testemunho sobre a importância da leitura literária para o desenvolvimento
humano.
Os Cortejos Literários acontecem mensalmente, e nada há neles de improviso.
Compõem um conjunto de estratégias de mediação da leitura executadas pelos
integrantes do polo
de leitura LiteraSampa, núcleo de organizações sociais imbuído de
promover a leitura e criado com o apoio do Instituto C&A. A ação dos jovens
de Parelheiros, último bairro de São Paulo já pregado à serra do Mar, se liga
ao trabalho do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac), um
dos integrantes do polo LiteraSampa. Dos Cortejos Literários, participam 23
autodenominados "escritureiros", adolescentes e jovens com idade
entre 14 e 23 anos, que se envolvem em todas as ações do projeto, inclusive na
gestão.
A história do grupo começou em 2008, quando o Ibeac identificou na região a
ausência de projetos voltados ao público juvenil. Foi então iniciada uma
reflexão com adolescentes e jovens sobre os 60 anos da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, uma releitura da carta conforme a realidade vivida na
comunidade. O diagnóstico, construído por eles junto à população local, tornou
evidente, por exemplo, a ausência de bibliotecas.
Daí começaram a surgir projetos de mediação da leitura, denominados Pílulas de
Leitura, atividade realizada no início em um posto de saúde da região e
posteriormente em outros espaços. As propostas evoluíram e cresceram – sempre
tendo os jovens como protagonistas. "No LiteraSampa levamos todos os
jovens para instâncias de decisão do polo. Em todas as ações, eles estão
presentes, e isso ajuda a desmontar preconceitos", conta a coordenadora
Isabel dos Santos Mayer, do Ibeac.
Mais vivos do que nunca
Como desdobramento do trabalho então iniciado, foi criada uma biblioteca em uma
pequena propriedade localizada num terreno contíguo ao cemitério alemão
existente no local – a região foi das primeiras de São Paulo a receber
imigrantes, ainda no início do século XIX. Por mais exótico que pareça, a
Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura nasceu viva e acolhedora, em uma
casa cedida pela administração do cemitério.
Os jovens se envolveram em toda a preparação do espaço e na organização do
ambiente. O primeiro acervo foi comprado pelo Instituto C&A. Inaugurada em
julho de 2010, a biblioteca logo se tornou um sucesso de público, atingindo a
média de 20 empréstimos diários. Com mais 3,5 mil livros selecionados e
catalogados, funciona para consulta às segundas e quartas-feiras e aos sábados.
Às terças e quintas-feiras, acontecem ali oficinas de leitura.
As ações de promoção da leitura implementadas são discutidas no âmbito do Ibeac
– que se ocupa da formação permanente dos jovens – e são concretizadas pelos
escritureiros, que se reúnem diariamente na biblioteca comunitária. O projeto
mais recente é o Sementes, uma atividade de contação de histórias realizada na
casa de gestantes e que reúne futuras mães da vizinhança. Como sugere o nome, o
objetivo do trabalho é semear entre as jovens a importância de ler e de contar
histórias para os rebentos que
estão chegando.
Transformação pela leitura
É uma boa analogia. A leitura de ficção vem plantando sementes corajosas na
região distante, bem mais perto do litoral do que do centro da metrópole,
sobretudo entre os jovens escritureiros, que encontraram nos livros o seu projeto
de vida. Que o diga Rafael Simões, de 20 anos, que agora lê ao menos cinco
livros mensais e concluiu um curso de técnico em biblioteconomia, aproveitando
uma oportunidade surgida nas atividades do Ibeac. Ou Renan Gomes, leitor de
Shakespeare e de obras que tratam da afirmação da identidade afro-americana,
cujo desempenho escolar deu um salto depois de se integrar à turma dos Cortejos
Literários.
E assim também Eduardo Alencar, estudante de pedagogia; Silvani e sua irmã
Sidnéia Chagas, que sonha com a gastronomia; Douglas Simões... Cada jovem tem
uma história de transformação, catalisada pela participação social por via da
leitura. Em comum, além da origem em um contexto social desafiador, todos
tinham o fato de sentir pouco apreço pelo ato de ler, sempre associado às
obrigações escolares. Hoje, mais do que leitores, são pessoas que acreditam no
poder da leitura para a humanização da sociedade.
Na pele de mediadores, os escritureiros também ganharam oportunidades raras de
formação e vivência cultural. Apenas em 2012, participaram da Flip, a Festa
Literária Internacional de Paraty (RJ), bem como foram a Porto Alegre (RS) e a
Salvador (BA) participar dos encontros nacionais dos polos de leitura do
programa Prazer
em Ler do Instituto C&A.
O retorno obtido pelos jovens manifesta-se não só no amadurecimento dos
projetos que desenvolvem, mas também na construção de laços afetivos.
Orgulham-se em contar que as crianças das escolas cobram sua visita,
reconhecem-nos em ônibus e demonstram afeto. Como uma espiral, as mudanças
espalham-se por outras dimensões – internas, como no caso de Caio Pereira, que
se integrou ao grupo timidamente, gaguejando na leitura, e agora surpreende pela
desenvoltura; ou sociais, com impactos na dinâmica familiar dos jovens,
semeando novas expectativas. "Muita gente que hoje está aqui vivia à toa e
sem perspectivas em casa. O projeto tirou pessoas de caminhos de risco",
diz Sidnéia Chagas. O grupo concorda.
Na comunidade e na política
As atividades realizadas rotineiramente pelos escritureiros do Ibeac se inserem
em um contexto maior que compõe o pano de fundo do trabalho do LiteraSampa e de
todos os polos de leitura apoiados pelo Instituto C&A: a incidência nas
políticas públicas do livro e da leitura. Com seis organizações-membros, em
2012 o LiteraSampa participou e convocou debates sobre o desenvolvimento dos
planos municipais do livro e da leitura em São Paulo e também em cidades
circunvizinhas, como Guarulhos (SP).
Ao mesmo tempo, no plano da ação comunitária, o polo trabalha para aumentar o
envolvimento com as escolas da
região onde atua. É o caso do trabalho realizado na Escola Estadual Prof.
Belkice Manhães Reis, entre outras de Parelheiros. Nesta unidade educacional,
que oferece ensino fundamental e médio, a biblioteca era fechada, e foi
reaberta pela atuação dos adolescentes e jovens. "Nossa escola vem trabalhando
fortemente sobre a leitura, e as mediações dos escritureiros são bem-vindas e
fazem diferença", diz a diretora Sandra Marciano de Oliveira. "O
trabalho dos jovens é maravilhoso. Incentiva as crianças e vai ao encontro do
trabalho que queremos fazer na escola", assinala.

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