quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Escritureiros de seu destino




"E lá vem a macumba!", diz a menina, entre risos, juntamente com todos os que passam pela rua ou esperam a abertura dos portões da Escola Estadual Prof. Belkice Manhães Reis, em Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. Ela bem sabe que não se trata de candomblé, mas o espanto inicialmente causado pelo surgimento de um grupo de adolescentes vestindo roupas coloridas e batendo instrumentos de percussão vai ser sempre assim lembrado pelos moradores do bairro. Agora, todos já estão acostumados a ouvir e a receber com boa vontade os garotos e garotas bem-humorados que circulam pelas ruas empoeiradas no projeto Cortejos Literários, para contar histórias e dar seu testemunho sobre a importância da leitura literária para o desenvolvimento humano. 

Os Cortejos Literários acontecem mensalmente, e nada há neles de improviso. Compõem um conjunto de estratégias de mediação da leitura executadas pelos integrantes do polo de leitura LiteraSampa, núcleo de organizações sociais imbuído de promover a leitura e criado com o apoio do Instituto C&A. A ação dos jovens de Parelheiros, último bairro de São Paulo já pregado à serra do Mar, se liga ao trabalho do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac), um dos integrantes do polo LiteraSampa. Dos Cortejos Literários, participam 23 autodenominados "escritureiros", adolescentes e jovens com idade entre 14 e 23 anos, que se envolvem em todas as ações do projeto, inclusive na gestão. 

A história do grupo começou em 2008, quando o Ibeac identificou na região a ausência de projetos voltados ao público juvenil. Foi então iniciada uma reflexão com adolescentes e jovens sobre os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma releitura da carta conforme a realidade vivida na comunidade. O diagnóstico, construído por eles junto à população local, tornou evidente, por exemplo, a ausência de bibliotecas. 

Daí começaram a surgir projetos de mediação da leitura, denominados Pílulas de Leitura, atividade realizada no início em um posto de saúde da região e posteriormente em outros espaços. As propostas evoluíram e cresceram – sempre tendo os jovens como protagonistas. "No LiteraSampa levamos todos os jovens para instâncias de decisão do polo. Em todas as ações, eles estão presentes, e isso ajuda a desmontar preconceitos", conta a coordenadora Isabel dos Santos Mayer, do Ibeac. 


Mais vivos do que nunca
Como desdobramento do trabalho então iniciado, foi criada uma biblioteca em uma pequena propriedade localizada num terreno contíguo ao cemitério alemão existente no local – a região foi das primeiras de São Paulo a receber imigrantes, ainda no início do século XIX. Por mais exótico que pareça, a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura nasceu viva e acolhedora, em uma casa cedida pela administração do cemitério. 

Os jovens se envolveram em toda a preparação do espaço e na organização do ambiente. O primeiro acervo foi comprado pelo Instituto C&A. Inaugurada em julho de 2010, a biblioteca logo se tornou um sucesso de público, atingindo a média de 20 empréstimos diários. Com mais 3,5 mil livros selecionados e catalogados, funciona para consulta às segundas e quartas-feiras e aos sábados. Às terças e quintas-feiras, acontecem ali oficinas de leitura. 

As ações de promoção da leitura implementadas são discutidas no âmbito do Ibeac – que se ocupa da formação permanente dos jovens – e são concretizadas pelos escritureiros, que se reúnem diariamente na biblioteca comunitária. O projeto mais recente é o Sementes, uma atividade de contação de histórias realizada na casa de gestantes e que reúne futuras mães da vizinhança. Como sugere o nome, o objetivo do trabalho é semear entre as jovens a importância de ler e de contar histórias para os rebentos que estão chegando. 


Transformação pela leitura
É uma boa analogia. A leitura de ficção vem plantando sementes corajosas na região distante, bem mais perto do litoral do que do centro da metrópole, sobretudo entre os jovens escritureiros, que encontraram nos livros o seu projeto de vida. Que o diga Rafael Simões, de 20 anos, que agora lê ao menos cinco livros mensais e concluiu um curso de técnico em biblioteconomia, aproveitando uma oportunidade surgida nas atividades do Ibeac. Ou Renan Gomes, leitor de Shakespeare e de obras que tratam da afirmação da identidade afro-americana, cujo desempenho escolar deu um salto depois de se integrar à turma dos Cortejos Literários. 

E assim também Eduardo Alencar, estudante de pedagogia; Silvani e sua irmã Sidnéia Chagas, que sonha com a gastronomia; Douglas Simões... Cada jovem tem uma história de transformação, catalisada pela participação social por via da leitura. Em comum, além da origem em um contexto social desafiador, todos tinham o fato de sentir pouco apreço pelo ato de ler, sempre associado às obrigações escolares. Hoje, mais do que leitores, são pessoas que acreditam no poder da leitura para a humanização da sociedade. 

Na pele de mediadores, os escritureiros também ganharam oportunidades raras de formação e vivência cultural. Apenas em 2012, participaram da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty (RJ), bem como foram a Porto Alegre (RS) e a Salvador (BA) participar dos encontros nacionais dos polos de leitura do programa Prazer em Ler do Instituto C&A. 

O retorno obtido pelos jovens manifesta-se não só no amadurecimento dos projetos que desenvolvem, mas também na construção de laços afetivos. Orgulham-se em contar que as crianças das escolas cobram sua visita, reconhecem-nos em ônibus e demonstram afeto. Como uma espiral, as mudanças espalham-se por outras dimensões – internas, como no caso de Caio Pereira, que se integrou ao grupo timidamente, gaguejando na leitura, e agora surpreende pela desenvoltura; ou sociais, com impactos na dinâmica familiar dos jovens, semeando novas expectativas. "Muita gente que hoje está aqui vivia à toa e sem perspectivas em casa. O projeto tirou pessoas de caminhos de risco", diz Sidnéia Chagas. O grupo concorda. 


Na comunidade e na política
As atividades realizadas rotineiramente pelos escritureiros do Ibeac se inserem em um contexto maior que compõe o pano de fundo do trabalho do LiteraSampa e de todos os polos de leitura apoiados pelo Instituto C&A: a incidência nas políticas públicas do livro e da leitura. Com seis organizações-membros, em 2012 o LiteraSampa participou e convocou debates sobre o desenvolvimento dos planos municipais do livro e da leitura em São Paulo e também em cidades circunvizinhas, como Guarulhos (SP). 

Ao mesmo tempo, no plano da ação comunitária, o polo trabalha para aumentar o envolvimento com as escolas da região onde atua. É o caso do trabalho realizado na Escola Estadual Prof. Belkice Manhães Reis, entre outras de Parelheiros. Nesta unidade educacional, que oferece ensino fundamental e médio, a biblioteca era fechada, e foi reaberta pela atuação dos adolescentes e jovens. "Nossa escola vem trabalhando fortemente sobre a leitura, e as mediações dos escritureiros são bem-vindas e fazem diferença", diz a diretora Sandra Marciano de Oliveira. "O trabalho dos jovens é maravilhoso. Incentiva as crianças e vai ao encontro do trabalho que queremos fazer na escola", assinala.




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