Projeto Parelheiros: inclusão da literatura no dia a dia
Região praticamente desconhecida de boa parte dos paulistanos, Parelheiros tem rica memória cultural. Projeto de incentivo à leitura resgata tradições locais e leva a literatura ao alcance dos moradores através de livros de qualidade, espaço aconchegante, mediadores-leitores e ligação com a comunidade.Ao som de tambores, entoados por um grupo de 25 adolescentes e jovens, os versos do “Cortejo de Leitura” chegam de Parelheiros – extremo sul da cidade de São Paulo – anunciando que a leitura já vai começar. As crianças vão entrando na roda, os adultos se dividem entre os que acompanham com palmas e os que disparam olhares de estranhamento. A roda vai se formando. Na terceira repetição dos versos, uma sacola transforma-se em tapete e dela saem livros e mais livros. É anunciada a leitura que será feita. Geralmente um poema ou um conto de fadas. E o silêncio se faz.
Depois da primeira leitura, não é raro que um espectador se anime e declame um poema de própria autoria. As crianças rapidamente ocupam o tapete, devoram os livros e vivem outros personagens e suas histórias. A mediação dura cerca de quarenta minutos. Acontece na porta de escolas, no ponto final de ônibus, próximo à feira livre, onde tiver gente. A prática é um convite para que os moradores visitem a Biblioteca Caminhos da Leitura e incluam a leitura de livros em suas vidas.
O grupo de adolescentes e jovens Escritureiros (Aventureiros da Escrita de Parelheiros) tem de 14 a 23 anos. Eles se encontram desde 2008, quando o Ibeac (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário), organização social que trabalha com direitos humanos, decidiu concentrar parte de suas ações numa região com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e contribuir para mudanças.
Falta de espaços culturais
A escolha de Parelheiros justificou-se pelo fato de que a região, na época, ocupava o último lugar nos rankings de avaliação das condições de vida nas 31 subprefeituras da cidade de São Paulo. Embora seja Área de Proteção Ambiental (APA Capivari Monos e Bororé-Colônia), com destacado patrimônio verde e hídrico, e rica diversidade humana e cultural, poucas notícias valorizavam a região. Para lá migraram, nos séculos XIX e XX, alemães e japoneses, que passaram a conviver com duas aldeias indígenas (Tenondé Porã e Krukutu) e com afrobrasileiros. Apesar de Parelheiros fornecer 30% da água consumida pelos paulistanos, estes desconhecem a região.
Após reuniões com lideranças comunitárias e representantes dos serviços públicos, definiu-se como prioritário o trabalho com jovens. Aproveitando a comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Ibeac e outros parceiros convidaram 60 adolescentes, de três regiões da cidade de São Paulo, para produzir um diagnóstico dos direitos humanos em seus bairros. Dentre as situações denunciadas estava a ausência de espaços culturais. Desta forma, escreveu-se o projeto de criação de uma biblioteca comunitária. Em 2009, graças ao apoio do Programa Prazer em Ler do Instituto C&A, Parelheiros teria sua primeira biblioteca de acesso público.
Da unidade de saúde ao cemitério
Um local para instalar a biblioteca não foi muito fácil. Os bairros de atuação do projeto têm poucos equipamentos públicos e os que existem são utilizados em cada centímetro. Com generosidade, encontrou-se uma sala da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Colônia. Embora modesta, foi suficiente para acomodar as estantes, os livros e as formações. O grupo aprendeu sobre mediação de leitura, organização de espaço, catalogação e classificação de acervo; visitou as principais livrarias de São Paulo e importantes eventos literários como a Flip – Feira Literária Internacional de Paraty – e a Bienal do Livro de São Paulo. Seus membros foram a lançamentos de livros e a bate-papo com autores. E realizaram mediação de leitura para mais de três mil crianças em escolas da região; organizando saraus literários sobre mulheres na literatura, Contos de Grimm e contos de terror.
Os Escritureiros e a biblioteca passaram a ser conhecidos e reconhecidos. O grupo crescia de um lado, as demandas do serviço de saúde de outro. Aos poucos, o espaço da UBS foi encolhendo, exigindo a busca de um novo lugar. Todos se empenharam e pensaram várias alternativas, entre elas, o Cemitério Alemão de Colônia, o mais antigo da cidade de São Paulo, que contava com uma casinha desocupada. A parceria se fez e a casa foi emprestada ao Ibeac. A reforma se deu em mutirão a partir dos princípios da permacultura: tinta de terra, jardim em espiral, captação de água de chuva, banco de adobe. Em 2012, após nova reforma, o espaço foi aberto.
Resgate de tradições e memória
A biblioteca conta hoje com mais de dois mil títulos literários. Quatro jovens atuam como articuladores frente aos serviços da região, elaborando e coordenando os projetos: Sementes de Leitura para bebês, grávidas, mães e educadores de crianças pequenas; Cortejo de Leitura, que leva poesia e música para as ruas, além de estandartes bordados com as histórias dos três bairros; e Griot de geração em geração, que pretende registrar em textos e imagens a tradição oral dos moradores de Parelheiros.
Estes projetos estão inseridos numa proposta ambiciosa de fazer de Parelheiros um museu a céu aberto, com percursos artísticos (estêncil, grafite e xilogravura), interligando a paisagem natural dos bairros de Colônia, Nova América e Barragem. Os jovens vão registrar as histórias de migração, as memórias gastronômicas e as histórias dos objetos herdados por descendentes de alemães, afrobrasileiros, indígenas e japoneses. O projeto está em fase final de captação de recursos, o que possibilitará a formação de cem adolescentes, visita a espaços culturais e exposições da cidade, bem como intercâmbio com jovens inseridos em projetos de outros museus.
"Cidade de leitores"
O Ibeac e os Escritureiros aprenderam desde cedo que um país de leitores se faz a muitas mãos. São necessários livros de qualidade, espaço aconchegante, mediadores-leitores, enraizamento comunitário. Com esta convicção, em 2010, juntou-se a outras organizações sociais da região metropolitana de São Paulo, que mantém bibliotecas e projetos de leitura e criou o Polo LiteraSampa. Com apoio do PPL/IC&A e parceria com escolas, empresas, universidades, institutos de formação etc, ele atende mensalmente mais de quatro mil usuários e já realizou cinco seminários de leitura (LiteraSampa e LiteraSampinha), saraus e oficinas literárias.
Em parceria om o Goethe-Institut São Paulo realizou oficinas para mediadores de leitura: “O rádio como meio de promoção da capacidade de leitura para crianças e jovens” com Wolfgang J. Fischer, jornalista, diretor da Radijojo em Berlim, e “Tudo o que os livros escondem - a experiência do projeto alemão Pinselfisch”, com a ilustradora Jule Pfeiffer-Spiekermann. O LiteraSampa está ainda empenhado em contribuir no processo de elaboração do Plano Municipal do Livro e da Leitura de São Paulo - PMLL/SP. Para tal, vem disseminando a ideia do acesso à leitura e à escrita como direito humano e envolvendo diferentes atores para que São Paulo seja reconhecida como uma cidade de leitores.
Bel Santos Mayer
é educadora social, formada em Ciências Matemáticas pela Universidade São Judas Tadeu, com especialização em Pedagogia Social pela Universidade Salesiana de Roma. Desde 1988 atua em organizações não governamentais. É empreendedora social da Ashoka. Desde 1997 coordena o Programa de Direitos Humanos do IBEAC. Faz parte da coordenação colegiada do Polo de Leitura LiteraSampa.Copyright: Goethe-Institut Brasilien
Agosto de 2013
http://www.goethe.de/ins/br/lp/kul/dub/ske/pt11521166.htm
é educadora social, formada em Ciências Matemáticas pela Universidade São Judas Tadeu, com especialização em Pedagogia Social pela Universidade Salesiana de Roma. Desde 1988 atua em organizações não governamentais. É empreendedora social da Ashoka. Desde 1997 coordena o Programa de Direitos Humanos do IBEAC. Faz parte da coordenação colegiada do Polo de Leitura LiteraSampa.Copyright: Goethe-Institut Brasilien
Agosto de 2013
http://www.goethe.de/ins/br/lp/kul/dub/ske/pt11521166.htm
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