terça-feira, 19 de junho de 2012

Indicações nas estantes das bibliotecas

Pedimos indicações de livros que foram emprestados de bibliotecas e nos marcaram de alguma forma
Vamos as indicações que recebemos através dos comentários no post "Nas estantes das bibliotecas".



Da Bel Mayer

Livro "O país do carnaval" de Jorge Amado.

Precisava ler por uma solicitação da Faculdade de Turismo. Meu pai possui a coleção de Jorge Amado até a década de 1980, mas como queria iniciar logo a leitura, pedi para uma colega, Lígia Sabino, pegar emprestado na Biblioteca Municipal Alceu Amoroso Lima.

Segue um comentário que escrevi sobre o livro e compartilhei com colegas de curso.

A obra “O país do carnaval” impressiona, agrada, provoca , surpreende, angustia, convoca a mudanças. Perdoe-me o leitor, se conjugo os verbos para um sujeito indefinido. O fato é que me agradou, provocou-me, angustiou-me, convocou-me, por diferentes motivos.
- Sou leitora de Jorge Amado, mas não havia passado por sua primeira obra - “O país do carnaval”. Impressiona ler os escritos de um jovem rapaz de 19 anos, fazendo perguntas e reflexões profundas sobre a vida e o sentido de viver, sobre o presente e o futuro do seu país.
- Embora seja uma ficção, o autor nos apresenta o cenário político, social e econômico da década de 1930, bem como os conflitos dos jovens da época. Seus personagens (Paulo Rigger - um jovem baiano recém-retornado de Paris e seu grupo de amigos) expressam o pensamento de uma elite baiana ao criticarem o modelo político e econômico do país e seus atores principais.
- Nos diálogos, por vezes de forma explícita por outras nas entrelinhas, aparecem os preconceitos a um país multirracial, multiétnico, multicultural. Junto com a suposta alegria de matriz africana teríamos herdado a incompetência e “incivilidade”? A ingenuidade de Jerônimo? Em várias passagens os amigos derramam suas críticas aos “escritores mulatos”. O pensamento, o mundo das ideias, a escrita deveriam ser “brancos”?
- É importante lembrar que não se trata de uma obra sociológica, de uma análise conjuntural. É um romance! E o romance provoca angústias! Os diálogos à mesa do bar ou na casa de Pedro Ticiano - que com seu ceticismo, perda de visão e progressivo enfraquecimento concretizava a finitude humana – giravam em torno de questões existenciais, da busca pela felicidade duvidando de sua existência. Angustiante, também, deparar-se com as contradições humanas na repetição de gestos condenados, como bater numa mulher ou abandoná-la por não ser “virgem”; ou a alienação ou ideais capitalistas de A. Gomes.
- O livro se constitui num conjunto de diálogos incompletos quase que convocando a pensar, a multiplicar perguntas. Afinal: tudo é carnaval? Para quem? A quem serve esta imagem? À política do pão e circo? De qual lado ficamos? Há lados? Ficamos? Ou nossas ideias e ideais já estão de passagem comprada para embarcar com Paulo Rigger e ficar rogando pragas para que o Brasil não dê certo?


Do Edson Feitosa

Título: Cléo e Daniel
Autor: Roberto Freire
Tipo de biblioteca: Pública
Nome da biblioteca: Afonso Schmidt 
Resenha/comentário: Um romance que ocorre em São Paulo e conta a história de um psiquiatra em crise pessoal e profissional. Conta a história da relação de Rudolf Flügel com Benjamin, a cafetina francesa Gabrielle e a relação de Rudolf com cada um dos personagens como Cléo,Daniel e Marcus. O Romance ocorre no final dos anos 60. 



Do Eduardo Alencar

Título: O meu pé de laranja lima
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Tipo de biblioteca: Comunitária
Nome da biblioteca: Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura
Resenha/ Comentário: A obra conta a história de um garoto de cinco anos chamado Zezé, e como diz logo na primeira página livro: se trata de uma “História de um meninozinho que um dia descobriu a dor...”. Zezé pertence a uma família pobre, muito numerosa e de pai desempregado, é um menino muito travesso, mas também inteligente e imaginativo: é cheio de sonhos. Com suas travessuras Zezé sempre acabava apanhando e como todo mundo lhe dissesse que ele não prestava que era afilhado do diabo, etc., ele acabava acreditando e, para se refugiar da vida sofrida e cheia de carências sociais e afetivas, Zezé começou uma amizade imaginária com o pé de Laranja Lima, que ficava no quintal de sua casa, o qual batizou de Minguinho/Xururuca. Contudo, Zezé consegue fazer algumas amizades entre elas a de um português o qual ele chama carinhosamente de Portuga.


Do Adriano Queiroz

Título: A náusea
Autor: Jean-Paul Sartre
Tipo de biblioteca: pública
Nome da biblioteca: Cassiano Ricardo
Resenha/comentário: Eu frequentei a Biblioteca Cassiano Ricardo do meio para o final da minha adolescência. Um dia meu olhos tropeçaram num livro chamado "As palavras", autobiografia de um filósofo francês, que logo nas primeiras páginas me despertou a vontade de saber o que ele pensava e o que tinha escrito. Terminei de ler este livro do Sartre e peguei "A náusea", talvez sua obra literária mais significativa e leitura quase obrigatória para a geração dos anos 40 a 70 para os jovens do séc. XX. Neste livro o pensamento existencialista sartreano está posto no processo de desencantamento do protagonista Antoine Roquentin, um homem erudito e vai em direção ao furacão daquelas perguntas que podem nos enlouquecer. Foi primeiro êxtase literário.


Agradecemos a todos que comentaram e indicaram livros aqui no blog.

Abraços.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sobre cinema e literatura

Cinema não é literatura. São duas formas artísticas com características peculiares e bem diferentes.
Entretanto, desde que surgiu, o cinema deve muito à literatura, e a moderna literatura recebeu enorme influência da arte cinematográfica, a ponto de sua relação com o público leitor ter sofrido com esse contato notáveis transformações. Mas isso é assunto para outras reflexões, que poderão ser feitas neste espaço.
Nesta semana, lamentamos a morte de Ray Bradbury, escritor cujas contribuições para a literatura e o cinema foram gigantescas.

Bradbury escritor e a ficção científica 
Como gênero literário, a ficção científica (que aborda o futuro da humanidade em cenários tecnológicos delirantes, as viagens no tempo, os seres extraterrestres, as especulações em torno de universos paralelos, etc.) sempre foi mais bem aproveitada pelo cinema do que pela indústria editorial. De Georges Méliès (1861-1938), nos primórdios da indústria cinematográfica, a Steven Spielberg, na atualidade, a FC impulsionou o cinema "de efeitos especiais". Mas, no Brasil, até hoje desperta escasso interesse de escritores e, em consequência, de editores e cineastas.
No século passado, entretanto, o sucesso de uma geração de talentosos escritores infundiu novo status às narrativas de ficção científica — que, até o advento da bomba atômica e da perspectiva de um apocalipse nuclear (II Guerra, Guerra Fria), circulavam apenas em edições modestas e revistas impressas em papel barato. A popularização dos temas da ficção científica "clássica" levou esses escritores a adotar uma nova linguagem (para atingir um público mais amplo, foi necessário abandonar o complicado jargão técnico) e uma perspectiva crítica, moralista, conservadora e às vezes apocalíptica em relação ao progresso tecnológico.
Esses autores foram os norte-americanos Ray Bradbury (1920-2012) e Robert Heinlein (1907-1988), o russo naturalizado norte-americano Isaac Asimov (1920-1992), o britânico Arthur C. Clarke (1917-2008) e o polonês Stanislaw Lem (1921-2006).
Bradbury escreveu romances e contos cujo texto foi muitas vezes comparado a poesia, ensaios e roteiros para teatro, cinema e televisão. Em sua obra abundante, destacam-se — como ininterrupta fonte de inspiração para romancistas, roteiristas e quadrinistas profissionais e amadores, além de amantes do insólito em geral — "As crônicas marcianas" (1950). Na antevisão do autor, o planeta Marte colonizado pelos terráqueos é um lugar em que a ideologia triunfalista humana aos poucos desmorona e se dilui na poeira deixada por antigas civilizações.


No cinema, Heinlein inspirou "Tropas estelares" (1997), dirigido por Paul Verheoven. Os textos de Asimov serviram de base para "Eu, robô" (2004, Alex Proyas) e "O homem bicentenário" (1999, Chris Columbus). Clarke escreveu o famosíssimo "2001, uma odisseia no espaço" e o roteiro de sua não menos famosa adaptação cinematográfica, dirigida em 1968 por Stanley Kubrick. "Solaris", de Lem, foi levado às telas em 1972, por Andrey Tarkovskiy, e em 2002, por Steven Soderbergh. Além desses conhecidos títulos, esses autores são responsáveis, de alguma forma, por centenas de adaptações e roteiros para cinema e séries de TV.

Bradbury roteirista: "Moby Dick", de Herman Melville/John Huston
Ray Bradbury, por sua vez, foi o roteirista (os roteiros também podem ser considerados como integrantes de um gênero literário específico) que preparou o mapa da mina para que o diretor John Huston (1906-1987) filmasse em 1956 "Moby Dick", adaptação cinematográfica da obra homônima de Herman Melville (1819-1891).
Melville é considerado um dos maiores escritores norte-americanos, e suas obras serviram de base para incontáveis (e até irreconhecíveis) adaptações para cinema e TV. São infindáveis as repercussões — sobre todas as formas artísticas — de sua narrativa (publicada em 1851) sobre a obsessiva perseguição que o sinistro capitão Acab move contra o fantasmagórico cachalote branco apelidado Moby Dick. Como coadjuvante, Orson Welles encarna um inesquecível pregador e seu curioso sermão construído com linguagem técnica náutica e da caça às baleias.
Huston foi um dos diretores do cinema norte-americano que mais influência exerceu sobre todas as outras cinematografias, dos jovens diretores franceses da Nouvelle Vague ao japonês Akira Kurosawa (1910-1998).
Assim, no filme "Moby Dick", reuniram-se quatro gigantes, Bradbury, Melville, Huston e Welles — ou cinco, se contarmos o feroz e indestrutível cachalote...

Bradbury adaptado para o cinema: "Fahrenheit 451", de François Truffaut
Em 1953, Bradbury publicou sua obra mais perturbadora, mais lembrada e controvertida, seja como livro, seja como adaptação para o cinema. Inspirado nas fogueiras com que os nazistas alemães (mas não só eles) queimavam obras de arte que consideravam “decadentes”, o autor visou todas as formas de censura e imaginou um futuro distópico, no qual a posse de livros seria considerada subversão da ordem pública, os bombeiros se encarregariam de incinerá-los e as pessoas teriam que imaginar jeitos de preservar a memória literária da humanidade.
Neste caso, a transposição para o cinema foi feita em 1966 pelo diretor francês François Truffaut (1932-1984), amigo dos livros e inimigo das más adaptações, um dos fundadores da Nouvelle Vague. Um filme excepcional, inclusive na filmografia de Truffaut, que não trabalhava com o gênero da ficção científica, não tinha filmado em cores até então nem filmava com diálogos em inglês. Uma declaração de amor pelas obras impressas que o diretor considerava as mais importantes já produzidas.




Frank Ferreira é editor e tradutor freelance, e cineclubista desde o início da década de 1980, quando ajudou a fundar o Cineclube Bixiga. Atualmente, participa do Cineclube Darcy Ribeiro, dos estudantes da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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A postagem das indicações de livros dos comentários do post "Nas estantes das bibliotecas", ficará para o dia 19/06.
Continuem contribuindo com dicas de leitura.


terça-feira, 5 de junho de 2012

Nas estantes das bibliotecas

Indique um livro que você pegou emprestado numa bibloteca e que te marcou e escreva um comentário sobre ele. Postaremos algumas indicações na página principal do blog na próxima terça-feira.
Conte-nos:
Título:
Autor:
Tipo de biblioteca (pública, comunitária, universitária...):
Nome da biblioteca (se lembrar):
Resenha/comentário:
Seu nome (com link de facebook ou twitter, caso queira):


Vamos trocar dicas de leitura e ainda relembrar momentos bons nas bibliotecas?!

Para aquecer nossas lembranças literárias, um poema, do português, Pedro Mexia que além dos seis livros de poesia publicados, escreve o blog "Lei Seca".


Pedro Mexia, in "Duplo Império"

Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ariano Suassuna e Congresso Nacional de Literatura

O escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, 84 anos, foi escolhido pelo Senado como "candidato oficial" do Brasil ao prêmio Nobel de Literatura. A indicação, feita pela Comissão de Relações Exteriores da instituição, foi aprovada nesta segunda-feira (dia 28). Agora, o encaminhamento do nome de Suassuna à Academia Sueca será feito com colaboração do Itamaraty.



Nascido na Paraíba em 1927, Suassuna mudou-se para Pernambuco na década de 1940. Em 1947, escreveu sua primeira peça, "Uma Mulher Vestida de Sol". Na década de 1950, produziu obras como "O Auto da Compadecida" (1955) e "O Santo e a Porca" (1957), incontornáveis para quem quer entender a literatura brasileira do século 20.

Na década de 1970, lançou o Movimento Armorial, com o objetivo de criar arte erudita a partir de elementos da cultura popular, como literatura de cordel e música de viola. Seu livro "O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta", de 1971, é baseado nesses preceitos.

O Nobel é o mais importante prêmio de literatura do planeta. Instituído em 1901, é concedido anualmente a um autor pelo conjunto de sua obra. Os vencedores são escolhidos pela Academia Sueca. O valor do prêmio é de cerca de 10 milhões de coroas suecas, o equivalente a R$ 2,75 milhões.

Até hoje, José Saramago foi o único escritor em língua portuguesa a ganhar o Nobel. Entre os brasileiros, o baiano Jorge Amado e o pernambucano João Cabral de Melo Neto já foram citados como possíveis concorrentes. Mas eles morreram em 2001 e 1999, respectivamente, sem serem premiados.

Veja as principais obras de Ariano Suassuna:

1947 - "Uma Mulher Vestida de Sol"
1949 - "Os Homens de Barro"
1950 - "Auto de João da Cruz"
 1952 - "O Arco Desolado"
1953 - "O Castigo da Soberba"
1954 - "O Rico Avarento"
1955 - "Auto da Compadecida"
1957 - "O Casamento Suspeitoso"
1957 - "O Santo e a Porca"
1958 - "O homem da Vaca e o Poder da Fortuna"
1959 - "A Pena e a Lei"
1960 - "Farsa da Boa Preguiça"
1962 - "A Caseira e a Catarina"
1971 - "O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta"
1976 - "História d'O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao sol da Onça Caetana"
1980 - "Sonetos com Mote Alheio"
1985 - "Sonetos de Albano Cervonegro"
1987 - "As Conchambranças de Quaderna"





Fonte: Portal Vermelho


E o estado da Paraíba manda mais boas notícias. Acontece de 3 a 6 de junho o Congresso Nacional de Literatura (CONALI), que nesta primeira edição homenageia, o conterrâneo de Suassuna, Augusto 
dos Anjos.
Clique na imagem para ver a programação.


Tempos idos


Não enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tê-las ao meu lado!


Não, não quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que não se enterra assim sem compaixão
Os escombros benditos de um Passado!


Ai! Não me arranques d’alma este conforto!
- Quero abraçar o meu passado morto,
- Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

Deixa ao menos que eu suba à Eternidade
Velado pelo círio da Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos idos!


Augusto dos Anjos